Vamos falar de Ética



De origem grega, a palavra éthos pode apresentar dois significados: Costumes e Caráter. De acordo com o dicionário, ética é uma parte da Filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano.


Muito se fala em ética, principalmente no ambiente profissional. Contudo, se a ética é a investigação do comportamento humano e o comportamento humano é o conjunto de reações de um sistema dinâmico face às interações, como garantir que eu e você temos o mesmo entendimento sobre o comportamento aceitável ou desejável frente a uma interação?


Normalmente estas reações (comportamento) são regidas pelos chamados valores e os valores são criados ou desenvolvidos com base em nossa vivência e experiências, além de serem influenciados pela nossa cultura e história.


Em um mundo cada vez mais globalizado, que propicia interações entre culturas e pessoas diferentes, você consegue imaginar o espectro de valores que influenciam o comportamento e consequentemente tocam a ética?


Pois é exatamente esta a raiz dos problemas envolvendo a ética.


Vamos aqui discutir a ética profissional baseada em bom-senso. Não cabe aqui uma discussão da ética pessoal de cada um. Um artigo como este não é o suficiente para discutir os aspectos antropológicos, filosóficos e psicológicos do comportamento e da ética.


A área de Suprimentos, especialmente Compras é sem dúvidas uma das áreas foco no tocante à ética. Não por acaso, compliance (do inglês “conformidade) é um aspecto da área de Compras que vem ganhando cada dia mais destaque.


Certamente, a grande maioria dos profissionais de compras, que já tem alguns anos de experiência na área, tem histórias para contar sobre abordagens anti-éticas por parte de vendedores. Quem de nós nunca recebeu um fornecedor que inocentemente pergunta “O que eu posso fazer para conseguir este business?” ou aquele tipo de vendedor que durante um processo de concorrência aparece com presentes caros, inocentemente classificados como “incentivo”?


Um, apenas um pequeno erro que seja relacionado à falta de ética caro comprador, pode destruir a sua carreira. Todos os outros tipos de “erros profissionais” podem ser tolerados desde que tratados, exceto falta de ética.


Durante a minha carreira, tive a chance de trabalhar com profissionais excelentes, e dentre esses profissionais excelentes, pelo menos 5 ou 6 foram demitidos por “justa causa”, causas estas relacionados à práticas anti-éticas.


É interessante pensar que todas essas pessoas eram extremamente profissionais e comprometidas. Um deles, chegou a ser um dos meus mentores em uma determinada empresa, o que contribuiu para a surpresa e o choque quando o time descobriu que a pessoa não fazia mais parte do quadro de funcionários da empresa e o motivo era “prática anti-ética”.


Em uma outra circunstância, excluí um fornecedor de um determinado processo de concorrência quando recebi denúncias de que a empresa em questão costumava receber informações indevidas e planejar suas próximas ações com base nestas informações. A empresa fornecedora mantinha um “informante” dentro da empresa compradora e este informante entregava informações sobre o fornecedor atual de um item, o preço pago e as principais cláusulas contratuais. De posse desta informação, a empresa vendedora baixava seu preço e submetia uma cotação não solicitada para a empresa compradora. Na época tivemos uma grande discussão quando eu precisei justificar para o meu chefe porquê determinado fornecedor havia sido excluído do processo de concorrência. Para o meu chefe, a prática anti-ética estava acontecendo por parte do “informante” e não da empresa que recebia informações.


O exemplo acima traduz o principal problema da ética: a divergência de entendimento sobre o que é ser ético e o que não é! Isso certamente pode trazer conflitos tanto no ambiente profissional quanto no pessoal. No caso acima, eu fiquei extremamente decepcionada com o meu chefe na época, por ele achar que algo “errado” ao meu ver, era na verdade correto. Ele ficou desconfiado do meu julgamento, por achar que algo correto estava errado.


Depois de conversarmos, o fornecedor foi incluído na lista de fornecedores participantes da concorrência novamente, entretanto não foi o fornecedor ganhador do projeto.


Certa vez, tive a oportunidade de gravar uma conversa sobre compliance, com uma profissional renomada, com carreira toda desenvolvida na área. Lembro-me de ter perguntado, “como você define o que é ser ético e o que não é?”. Ela então me respondeu algo que se tornou a minha “regra de ouro” em relação à compliance: “Ser ético é fazer quando você está sozinho, exatamente as mesmas coisas que você faria se estivesse sendo observado pelos seus pais, pelo seu chefe ou por alguém que você admira”.


Quando em dúvida sobre algo ser ou não ético, vale a pena confiar um pouquinho na intuição. Muitas vezes, nós sabemos “lá no fundo” se algo está certo ou não.



Escrito por Flávia Paiva | 19/04/2021