O perigo das ‘lives’: O perigo escondido na transmissão de conteúdo



Que 2020 mudou o mundo é fato! O Coronavírus ou ‘CV-19’ ficará para sempre como um ‘divisor de águas’ na vida das pessoas.


Escritórios e casas se fundiram em um único espaço. Horário de trabalho e horário de lazer também. O mundo digital se tornou ainda mais digital com ‘happy hours’ e ‘onboarding’ de novos funcionários virtualmente.


Também é fato que a profissão de ‘influencer’ passou a ter uma proporção e adesão maiores em 2020. É cada vez mais comum (e também motivo de piada para alguns) pessoas se auto-denominarem ‘influencers’ ou adicionarem o termo ‘oficial’ em seus perfis nas redes sociais.


No âmbito profissional, sempre foi um privilégio e sinônimo de prestígio adquirido ao longo de muitos anos de experiência, poder palestrar em um congresso ou simpósio. Isso era o ‘divisor de águas’ para muitos. O momento em que a carreira e os anos de sucesso se consolidavam na oportunidade de poder transmitir conhecimento para outros profissionais de diferentes indústrias e segmentos interessados no assunto, seja ele qual fosse. Geralmente estes eventos eram organizados por empresas ou instituições que não raramente cobravam para que se pudesse ter acesso com exclusividade à história de vida e de carreira de determinado palestrante. Com isso, o organizador do evento era o responsável pela verificação do conteúdo a ser veiculado. O organizador também era responsável por avaliar e conceder o ‘selo de aprovação’ de que determinado profissional possuía experiência, carreira, resultados e conhecimento dignos de se compartilhar com outros profissionais em uma palestra. Muito dinheiro era investido para que comentários como “Você viu a ferramenta que o fulano usou para maximizar os Savings?” Ou “Eu participei de uma palestra com o fulano da empresa ‘x’ e foi assim que eles implementaram o programa de relacionamento com o fornecedor” surgissem de forma orgânica e as palestras eram sempre finalizadas com um ‘cocktail’ ao final do dia com o objetivo de ampliar o networking dos participantes - participantes estes que possuíam as devidas credenciais (e cujas empresas haviam investido monetariamente em suas inscrições) para participar do evento.


Pois bem, o ano agora é 2020! Estamos em meio à uma pandemia em que de repente ‘aglomerações’ em qualquer forma não são permitidas. De festas de aniversário a jogos de futebol. De performances teatrais a simpósios profissionais. Do ‘dia para a noite’ fomos obrigados a permanecer em casa, manter o mínimo possível de interações com outros seres humanos e nos conectar com o mundo através da tela de um computador.


No começo foi até ‘divertido’. Pessoas que nunca haviam tido a chance de trabalhar de casa tiveram de reaprender a fazer o seu trabalho. Supervisores tiveram de ser criativos para garantir a performance de suas equipes. Alunos tiveram que aprender a ser produtivos tendo um professor virtual. Professores tiveram que reaprender a como controlar um grupo de alunos virtualmente.


Aos poucos, o lazer também foi se transformando para o mundo virtual. Ao passo que grandes eventos, shows e festivais de música cancelaram seus encontros presenciais, outros encontros virtuais foram criados. Em meados de 2020, que atire a primeira pedra quem não assistiu a pelo menos uma performance ao vivo de seu artista favorito. As chamadas ‘lives’ se tornaram uma forma dos artistas continuarem interagindo com o seu público e garantindo uma forma de remuneração, fosse através de patrocinadores cujas logomarcas apareciam nos cenários das transmissões ao vivo ou da cobrança de ‘ingresso’ para assistir ao show virtual. Se por um lado a interação com o artista e com outras pessoas desapareceu, por outro, as longas filas para ir ao banheiro ou para comprar uma bebida no show também. Se antes você tinha que se arrumar e colocar uma roupa especial para assistir à sua banda favorita, agora você pode pular e aumentar o volume do seu computador, comendo pipoca e vestindo pijama na sala da sua casa!


Não demorou muito para que esses benefícios do mundo virtual fossem percebidos pelos organizadores de eventos corporativos. Ora, por que se preocupar em buscar um local adequado que comporte centenas de pessoas (ou milhares dependendo do evento)? Por que se preocupar com o alvará de funcionamento, com a inspeção do corpo de bombeiros, com a alimentação do ‘happy hour’, com a logística dos palestrantes, com o estacionamento de centenas de carros e em como os participantes serão transportados do estacionamento ao local do evento, se podemos disponibilizar tudo isso com apenas alguns ‘cliques’?

Ainda há muita controvérsia sobre os eventos continuarem ou não virtualmente depois que pandemia passar, mas por enquanto, esta foi a melhor solução. E foi aí que os problemas começaram.


O que antes custava centenas de milhares de reais (ou até mais dependendo do evento), passou a custar muito menos.


Se no lazer dezenas de lives passaram a ‘pipocar’, no mundo corporativo, a tendência também se seguiu e dezenas de convites eram enviados semanalmente (e muitos automaticamente). De repente, nos vimos soterrados por eventos e precisamos priorizar os que realmente queríamos participar.


Novamente pouco tempo se passou até que empresas que no mundo presencial não teriam condições financeiras de organizar um evento, decidiram fazê-lo. O mesmo também aconteceu com profissionais que talvez não conseguissem conduzir uma palestra presencial para centenas de pessoas e facilmente o fizeram através de uma tela. Os eventos virtuais perderam o “selo de aprovação” dos organizadores de eventos e ‘qualquer pessoa’ passou a ter a chance de divulgar conteúdo.


Mas será que todos os conteúdos transmitidos nas ‘lives’ são conteúdos de qualidade? Será que as pessoas que estão transmitindo estes conteúdos possuem as credenciais para tal?


Não se deixe enganar por ‘soluções digitais’ e tenha um olhar atento e crítico para o conteúdo das ‘lives’. Utilize as redes sociais como LinkedIn, Facebook, Instagram e Club House para pesquisar a carreira do profissional que está compartilhando informações profissionais. Atente-se também para os materiais que o profissional está usando bem como para o ambiente em que a ‘live’ está sendo feita. Uma outra dica valiosa é atentar-se para os dados que estão sendo solicitados para que você tenha acesso à ‘live’. Muitas empresas compartilham informações irrelevantes apenas para criar um banco de dados de contatos e posteriormente inundarem nossa caixa de e-mails com propagandas sobre sistemas, treinamentos, soluções, etc.


Ainda como resultado da pandemia, diversos profissionais que antes se sentavam em escritórios de grandes empresas, de repente tiveram suas posições eliminadas e viram na divulgação de conteúdo uma oportunidade de empreendedorismo (Você já parou para perceber quantos “coaches” surgiram?).


Lembre-se de que há uma linha tênue entre conhecimento para si (como EU faço as coisas) versus boas práticas de mercado (como os melhores do mercado, os melhores profissionais, as melhores empresas fazem as coisas). O poder de se falar em nome de um todo é algo que deve ser conquistado, com muito trabalho, esforço, pesquisa e principalmente tempo e experiência. Você não ganha automaticamente o direito de ‘ensinar’ ou falar em nome de outros profissionais apenas porque a pandemia abriu este canal de comunicação e de repente você tem uma audiência de diversos profissionais de compras para lhe escutar. O que aliás pode ser uma armadilha terrível! Com a internet e os eventos virtuais, não é possível saber com exatidão quem está do outro lado da tela. Imagine que você está falando sobre negociação em uma ‘live’ e William Ury está assistindo. Imagine que você está discutindo as 5 forças de Porter e o próprio Michael Porter está assistindo. Para ser menos extremista, imagine que o seu possível futuro chefe está em uma ‘live’ que você decidiu fazer e por qualquer que seja o motivo, a discussão vai para um caminho que você não se sente muito confortável em falar. Pode ser embaraçoso, além de uma falta grave na sua carreira.


Nunca, em hipótese alguma, faça uma ‘live’ se você não estiver confortável e pense: ”Eu toparia falar sobre isso para uma audiência de 100 executivos, Presidentes e CPOs engravatados (ou de salto alto)?”. E em relação a assistir uma ‘live’ também pense: “Esta pessoa tem conhecimento suficiente para agregar em algo?”.


A internet está cheia de armadilhas, e as ‘lives’ são apenas mais uma delas.


Nas ‘lives’ assim como na vida (com o perdão do trocadilho) convém ser moderado em tudo, até na moderação, já dizia Oscar Wilde.


Escrito por Flávia Paiva | 22/02/2021