RPA e os Soft Skills: Porque você não deve temer ser substituído por um robô



É cada dia mais comum ouvirmos falar sobre disrupções tecnológicas. Todos os dias surge uma nova ferramenta, um novo software, uma nova metodologia ou alguém tentando fazer algo de forma diferente. E isso é excelente!


Disrupções tecnológicas tendem a causar espanto e medo. Imagine a reação da primeira pessoa que viu uma televisão funcionando ou a primeira pessoa que recebeu um comunicado via fax. Imagine a primeira pessoa que recebeu um e-mail ou quando o seu telefone celular tocou pela primeira vez.


Agora faça um outro exercício: Tente imaginar a sua vida sem essas disrupções tecnológicas. Imagine não ter acesso ao seu telefone celular ou ao seu provedor de vídeos ‘on demand’. Imagine trabalhar sem e-mails e dependendo de memorandos para se comunicar com o seu chefe ou seu time. Seria complicado, certo?


Todas estas disrupções (que em dado momento foram consideradas assustadoras), hoje fazem parte do conjunto de coisas com as quais não podemos ‘viver sem’. Isso mostra que daqui a alguns anos o que hoje consideramos tecnologias que estão longe de nossa realidade, serão parte integrante de nossas vidas e do nosso dia-a-dia, como por exemplo as viagens espaciais para cidadãos comuns sendo amplamente divulgadas pela Tesla.


Trazendo isso para o mundo corporativo, uma das mais importantes disrupções tecnológicas dos últimos tempos foi o desenvolvimento do RPA (Robotic Process Automation) ou robôs. O primeiro sistema de RPA conhecido foi desenvolvido em 2003 pela Blue Prism, uma empresa Britânica que aliou seus conhecimentos em software aos recém desenvolvidos conhecimentos em AI (Artificial Intelligence ou Inteligência Artificial) e programou sistemas (robôs) para efetuarem atividades táticas e normalmente repetitivas.


Na área de compras, é cada vez mais comum a utilização de robôs para este tipo de atividades repetitivas como por exemplo a emissão de pedidos a partir de requisições de compras. E é aí que as percepções (e opiniões!) começam a se complicar.


Um estudo publicado em 2017 pela consultoria PwC com cerca de 10 mil profissionais, mostrou que mais de 37% destas pessoas têm medo de que seus postos de trabalho sejam substituídos por robôs. Entretanto, o que talvez estes mais de 3.700 profissionais não consideraram foram os chamados ‘soft skills’.


Soft skills’ (do inglês ‘competências) são as habilidades e características pessoais que permitem que as pessoas interajam efetivamente e harmoniosamente com outras pessoas. Embora possamos programar um robô para que ele performe uma atividade repetitiva, ainda não podemos programá-lo para que ele crie um ‘rapport’ (do inglês, expressão sem tradução literal que significa uma relação próxima e harmoniosa entre duas ou mais pessoas ou grupos, na qual ideias, motivações e sentimentos dos participantes são mutuamente compreendidos). Embora já existam alguns robôs considerados ‘humanóides’ como a robô Sophia da empresa Hanson Robotics de Hong Kong, com grande inteligência artificial e enorme capacidade de aprendizado, Sophia confirma quando perguntada: “Eu não possuo sentimentos”.


Esta falta de sentimentos, que no mundo corporativo pode ser traduzida como a falta de ‘rapport’, é algo que nós profissionais da área de compras podemos (e devemos) utilizar a nosso favor ao nos compararmos com robôs.


Há algumas semanas, participando de um webinar (apresentação virtual) de uma empresa global, fui surpreendida por um dos participantes utilizando a janela de bate-papo para reclamar do conteúdo da apresentação e fazer propaganda contrária à empresa anfitriã. Em outra situação ao tentar compartilhar um arquivo com um colega fui surpreendida por um comentário agressivo (“o seu computador tem vírus”), após inúmeras tentativas em vão de abrir o tal arquivo. Quantos de nós tem exemplos ‘na ponta da língua’ sobre um colega do escritório ter sido insensível ou rude?


Pois bem, quando você é o colega insensível ou rude, você está demonstrando não possuir os ‘soft skills’ e aí sim, caro comprador, os seus ‘hard skills’ (habilidades aprendidas via repetição, prática ou educação formal) correm o risco de ser substituídas por um robô. Se você for o colega que não está satisfeito com o conteúdo da apresentação virtual, guarde esta informação para si e deixe que os outros participantes tirem suas próprias conclusões. Se você for o colega tentando abrir um arquivo corrompido, substitua “o seu computador tem virus” por “acho que estamos com um problema, como podemos resolver isso?”. Pratique a utilização de um dos mais importantes ‘soft skills’: a gentileza. Especialmente em tempos de pandemia, os quais alteraram drasticamente a nossa rotina, todos estão ‘esgotados’. Não custa nada tentar ser um pouquinho mais gentil!


Tratando-se de um profissional da área de Compras, quantas vezes você já precisou do seu fornecedor para aprender algo em que ele é especialista? Quantas vezes você já apelou para o seu bom relacionamento com o fornecedor para conseguir aquela negociação especial que se encaixava no orçamento da sua empresa? Embora já existam robôs treinados para aprender a negociar com humanos (utilizando a tecnologia chamada ‘HRC - Human-Robot Collaboration’ ou Colaboração Humano-Robô), esta disrupção ainda parece estar distante do dia-a-dia dos compradores, entretanto a necessidade de negociar com fornecedores se faz cada dia mais presente, especialmente em um mundo corporativo onde estratégia é sinônimo de resultados.


Você pode estar se perguntando como um robô pode determinar a estratégia de um jogo de xadrez (talvez um dos mais conhecidos jogos de estratégia), se eles são comumente utilizados para atividades repetitivas e em xadrez, seu próximo passo depende do passo do seu adversário. É necessário fazermos aqui, uma clara distinção entre pensar e sentir. Os robôs pensam (daí o termo “inteligência artificial”) e são capazes de decidir qual é o melhor movimento baseado no objetivo final (vencer), ao mesmo tempo em que mapeiam e analisam os movimentos do jogador adversário. Com o tempo (que aliás é muitíssimo curto) o robô vai entendendo o padrão dos movimentos do adversário e vai adicionando este padrão ao seu “cérebro” (processo chamado de “auto-aprendizado” no qual o robô analisa informações do ambiente externo e as traduz em aprendizado).


Ainda utilizando o case anterior do jogo de xadrez, ao incluirmos novas informações sensíveis (vencer para que eu não perca o meu emprego ou vencer para que eu tenha dinheiro para alimentar a minha família) ao que o robô entende como seu objetivo, nenhuma mudança é observada em seu comportamento. Ou seja, definitivamente robôs pensam, mas não sentem.


E esta lacuna é o que nos coloca em posição de vantagem em relação aos robôs. Robôs podem trabalhar 24 horas por dia incansavelmente, não precisam de férias, não tem feriados e seus filhos nunca ficam doentes, eles não tem problemas pessoais e nunca precisam se afastar do trabalho.


Em contrapartida, nós, seres humanos podemos ser frágeis quando comparados às máquinas, mas certamente seremos empáticos quando a nossa meta passar de “gerar savings” para “alcançar a meta de saving para que a empresa possa fazer uma maior contribuição à uma determinada ONG”. Seremos empáticos ao definir que a empresa ganhadora de um processo de licitação é aquela cujo dono faz parte de uma minoria, garantindo assim uma base de fornecedores diversa. Seremos empáticos quando o fornecedor ligar desesperado pedindo um dia a mais para entregar a proposta, porque seu filho está doente. Ao deixar essas decisões ‘nas mãos’ dos robôs, savings são savings, independente do motivo. Fornecedores são fornecedores, independente de quem é o dono da empresa e finalmente atraso na entrega da proposta resulta em fornecedor desqualificado. Simples assim!


Não sejamos robôs em nossa carreira e vida profissional. Muito pelo contrário, abracemos a tecnologia e façamos o melhor uso dela, ao mesmo tempo em que demonstremos a habilidade que tanto nos diferencia dos robôs: o sentir!


Que você sinta cada pedacinho do seu dia. Que você seja gentil e deixe marcas positivas e memórias boas por onde passar. Que você use os robôs mas jamais seja um deles, afinal, embora os robôs tenham vida eterna sua experiência é rasa (e vazia!), enquanto nós, temos um tempo limitado de vida, mas milhares de oportunidades a cada dia de encher a nossa vida de sentimentos e propósitos!



Escrito por Flávia Paiva | 18/03/2021